Tive o ímpeto de tapar os
ouvidos, tamanho era o falatório ao meu redor. Crianças, mães, pais, amigos,
namorados... Todos falavam sem parar como se não houvesse amanhã, despertando
em mim uma espécie de fobia. O shopping estava muito cheio pra uma quinta-feira,
mas parecia que não havia dia em que aquele local estivesse vazio. Minha
vontade real era ficar do lado de fora, próximo às paradas de ônibus,
observando com admiração a lua até que algum dos meus amigos chegassem e aí
pudéssemos ir para a praça de alimentação. Chequei o relógio e ainda faltavam
45 minutos para começar o show, e tudo o que pude pensar era na saudade que eu
sentia quando aquele momento acontecia semanalmente, tanta coisa havia mudado
desde tempo, um pouco mais de um ano atrás.
O celular vibrou em minhas mãos e
li a mensagem de uma amiga que dizia que em poucos minutos ela chegaria. Ótimo,
eu, que já odiava sair sozinha, era obrigada a estar ali entre aquela multidão,
me sentindo uma formiguinha, por mais alguns minutos. Eu esperava que aquela
irritação passasse antes que ela chegasse, porque até eu estava me achando o
cúmulo da chatice. Prendi meu olhar em um quiosque de celulares, mas sem
realmente ver nada, me perdendo em pensamentos. Eu o havia convidado também, há
duas semanas atrás, mas eu duvidava muito que ele sequer se lembrasse, e eu nem
sei se podia culpa-lo. Mentira, eu podia, no dia anterior, toquei no assunto do
show bem na frente dele para ver se havia alguma reação. Nada. Já no dia do
show, pela tarde, eu havia compartilhado um flyer do show informando hora e
local, na tentativa patética de não ter que falar com ele diretamente. Agora
era só esperar, embora uma vozinha dentro do meu subconsciente me dissesse que
essa esperança era ridícula. Pode parecer pessimismo, mas meu subconsciente não
costumava me enganar com falsas esperanças, ou falsos pesares. Pisquei duas
vezes focando novamente a visão e notei uma mão frenética acenando na minha
frente.
-Até que enfim! – eu disse
abraçando-a.
-Demorei muito? Mas ainda nem são
cinco e meia, o show não é às seis?
-Sim, mas eu queria ter alguns
minutos para vasculhar lojas antes disso – sorri agarrando seu braço.
Perguntei em que loja ela queria
ir antes e a resposta foi justamente lojas de celulares, pois queria muito
comprar um smartphone. Caminhamos um pouco, olhamos algumas lojas, mas paramos
em uma que se localizava no meio do corredor. Modelo escolhido, depois de muito
hesito, ela deu início a compra. O problema é que estava demorando mais do que
eu havia planejado, então sugeri de ir logo pegar uma mesa em frente ao palco,
e ela me encontraria lá depois de resolver tudo. Ela concordou e eu saí da loja
quase correndo, esperando que anda desse tempo de pegar uma boa mesa.
-Yohanna! – ouvi meu nome ser
gritado assim que me aproximei do palco.
Acenei de volta e me encaminhei
para a mesa em que estavam dois amigos meus, um deles guitarrista da banda, um
menina que eu conhecia, e outras duas pessoas que eu não me lembrava de já ter
visto antes. Puxei uma cadeira e sentei à mesa deles, esperando alguns dos meus
amigos chegarem. A primeira a chegar foi a que havia ficado na loja pra comprar
o celular, embora o show já tivesse começado, ela não havia perdido muita
coisa. Os outros chegaram mais ou menos meia hora depois e, apesar de eu estar
irritada com a demora, comecei a aproveitar o show de verdade. A maioria das
músicas pareciam fazer parte da trilha sonora da minha vida, umas com
significados profundos, e outras que haviam marcado momentos importantes.
Apesar de estar prestando atenção ao palco, aos meus amigos e às músicas, eu
não deixava de virar a cabeça para a direita, onde ficava, coincidentemente, a
escada rolante. Era bobagem, afinal, o show já deveria estar na metade, mas eu
não conseguia não pensar que ele podia subir por ali a qualquer momento.
Quando a melodia de uma música em
específico começou, tive de fechar os olhos pra conseguir controlar as emoções
que ela me causava. Cantei a introdução viajando, até perceber que algo estava
estranho. Eu estava errado algumas partes que eu tinha certeza de que sabia de
cor, então decidi parar e prestar atenção ao que o vocalista cantava. Pareciam
palavras desconexas, mas uma delas acabou sendo meu nome. Franzi a testa
tentando entender o que estava acontecendo, quando senti alguém tapar meus
olhos com as mãos. Dedilhei aquelas mãos com a ponta dos meus dedos e senti meu
coração disparar, eu adorava aquele toque, amava aquela quentura, amava aquela
pessoa. Ele tirou as mãos e estendeu uma delas para mim, que aceitei mesmo sem
entender o que se passava. O vocalista da banda continuava cantando os versos daquela
canção que eu tanto amava por me lembrar justamente ele, quando fui encaminhada
para o centro do palco. Ali, entre os meus músicos favoritos, minhas músicas
favoritas e muitas das minhas pessoas favoritas, meu amor favorito (e único) depositou
um beijo cálido em minha cabeça e pronunciou as palavras mágicas.
-Eu te amo.
Parecia bom demais pra ser
verdade. Pisquei duas vezes e me vi ainda sentada na cadeira, cantando baixinho
os versos de outra música, e, segundo minha amiga, eu tinha acabado de sair de
um tipo de transe. Meus olhos antes estavam fixos no palco, e minha mente
parecia estar em outra galáxia. Suspirei, eu tinha sonhado acordada. Não sei se
pelo efeito da música, ou daquela maldita esperança que martelava meu peito. O
show prosseguiu e dessa vez não me permiti divagar em nenhum momento, me
entretendo com conversas ou tentando prestar atenção às letras. Quando
terminou, tive de fazer força pra engolir o choro, não sei se pela saudade
antecipada que eu estava sentido, ou pela esperança vã que em atormentou a
noite toda. Fomos falar com os meninos da banda e o abraço deles me
reconfortou, um em especial, e me fez acreditar, naquele momento, pelo menos,
que aquela falta a um evento que era importante pra mim não deveria marcar o
fim da esperança, mas sim, o início de uma superação.
Eu não sabia se estava sendo
radical, ou se estava certa, ao tentar parar de machucar meu coração, eu não
sabia como eu iria agir dali a quatro dias, quando eu o veria de novo, eu não
sabia como ia esquecer. Eu só sabia que meu maior desejo, era que o fim do
show, significasse, além da saudade, das boas lembranças, da reafirmação do meu
sentimento de carinho por aquelas pessoas, o fim de um sentimento que estava
impregnado em mim. Eu podia sonhara acordada quantas vezes fosse, mas nenhuma
delas iria me trazer a felicidade que eu queria. E ainda tinha uma coisa,
nenhuma música realmente boa, merecia ser estragada por más lembranças.
- Umas das minhas autoras preferidas. Yohanna Gurgel
Gente, nem eu tive coragem de postar esse texto... Obrigadinha *-* minha amiga preferida...
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