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21 outubro 2013

Aquela música

Tive o ímpeto de tapar os ouvidos, tamanho era o falatório ao meu redor. Crianças, mães, pais, amigos, namorados... Todos falavam sem parar como se não houvesse amanhã, despertando em mim uma espécie de fobia. O shopping estava muito cheio pra uma quinta-feira, mas parecia que não havia dia em que aquele local estivesse vazio. Minha vontade real era ficar do lado de fora, próximo às paradas de ônibus, observando com admiração a lua até que algum dos meus amigos chegassem e aí pudéssemos ir para a praça de alimentação. Chequei o relógio e ainda faltavam 45 minutos para começar o show, e tudo o que pude pensar era na saudade que eu sentia quando aquele momento acontecia semanalmente, tanta coisa havia mudado desde tempo, um pouco mais de um ano atrás.
O celular vibrou em minhas mãos e li a mensagem de uma amiga que dizia que em poucos minutos ela chegaria. Ótimo, eu, que já odiava sair sozinha, era obrigada a estar ali entre aquela multidão, me sentindo uma formiguinha, por mais alguns minutos. Eu esperava que aquela irritação passasse antes que ela chegasse, porque até eu estava me achando o cúmulo da chatice. Prendi meu olhar em um quiosque de celulares, mas sem realmente ver nada, me perdendo em pensamentos. Eu o havia convidado também, há duas semanas atrás, mas eu duvidava muito que ele sequer se lembrasse, e eu nem sei se podia culpa-lo. Mentira, eu podia, no dia anterior, toquei no assunto do show bem na frente dele para ver se havia alguma reação. Nada. Já no dia do show, pela tarde, eu havia compartilhado um flyer do show informando hora e local, na tentativa patética de não ter que falar com ele diretamente. Agora era só esperar, embora uma vozinha dentro do meu subconsciente me dissesse que essa esperança era ridícula. Pode parecer pessimismo, mas meu subconsciente não costumava me enganar com falsas esperanças, ou falsos pesares. Pisquei duas vezes focando novamente a visão e notei uma mão frenética acenando na minha frente.
-Até que enfim! – eu disse abraçando-a.
-Demorei muito? Mas ainda nem são cinco e meia, o show não é às seis?
-Sim, mas eu queria ter alguns minutos para vasculhar lojas antes disso – sorri agarrando seu braço.
Perguntei em que loja ela queria ir antes e a resposta foi justamente lojas de celulares, pois queria muito comprar um smartphone. Caminhamos um pouco, olhamos algumas lojas, mas paramos em uma que se localizava no meio do corredor. Modelo escolhido, depois de muito hesito, ela deu início a compra. O problema é que estava demorando mais do que eu havia planejado, então sugeri de ir logo pegar uma mesa em frente ao palco, e ela me encontraria lá depois de resolver tudo. Ela concordou e eu saí da loja quase correndo, esperando que anda desse tempo de pegar uma boa mesa.
-Yohanna! – ouvi meu nome ser gritado assim que me aproximei do palco.
Acenei de volta e me encaminhei para a mesa em que estavam dois amigos meus, um deles guitarrista da banda, um menina que eu conhecia, e outras duas pessoas que eu não me lembrava de já ter visto antes. Puxei uma cadeira e sentei à mesa deles, esperando alguns dos meus amigos chegarem. A primeira a chegar foi a que havia ficado na loja pra comprar o celular, embora o show já tivesse começado, ela não havia perdido muita coisa. Os outros chegaram mais ou menos meia hora depois e, apesar de eu estar irritada com a demora, comecei a aproveitar o show de verdade. A maioria das músicas pareciam fazer parte da trilha sonora da minha vida, umas com significados profundos, e outras que haviam marcado momentos importantes. Apesar de estar prestando atenção ao palco, aos meus amigos e às músicas, eu não deixava de virar a cabeça para a direita, onde ficava, coincidentemente, a escada rolante. Era bobagem, afinal, o show já deveria estar na metade, mas eu não conseguia não pensar que ele podia subir por ali a qualquer momento.
Quando a melodia de uma música em específico começou, tive de fechar os olhos pra conseguir controlar as emoções que ela me causava. Cantei a introdução viajando, até perceber que algo estava estranho. Eu estava errado algumas partes que eu tinha certeza de que sabia de cor, então decidi parar e prestar atenção ao que o vocalista cantava. Pareciam palavras desconexas, mas uma delas acabou sendo meu nome. Franzi a testa tentando entender o que estava acontecendo, quando senti alguém tapar meus olhos com as mãos. Dedilhei aquelas mãos com a ponta dos meus dedos e senti meu coração disparar, eu adorava aquele toque, amava aquela quentura, amava aquela pessoa. Ele tirou as mãos e estendeu uma delas para mim, que aceitei mesmo sem entender o que se passava. O vocalista da banda continuava cantando os versos daquela canção que eu tanto amava por me lembrar justamente ele, quando fui encaminhada para o centro do palco. Ali, entre os meus músicos favoritos, minhas músicas favoritas e muitas das minhas pessoas favoritas, meu amor favorito (e único) depositou um beijo cálido em minha cabeça e pronunciou as palavras mágicas.
-Eu te amo.
Parecia bom demais pra ser verdade. Pisquei duas vezes e me vi ainda sentada na cadeira, cantando baixinho os versos de outra música, e, segundo minha amiga, eu tinha acabado de sair de um tipo de transe. Meus olhos antes estavam fixos no palco, e minha mente parecia estar em outra galáxia. Suspirei, eu tinha sonhado acordada. Não sei se pelo efeito da música, ou daquela maldita esperança que martelava meu peito. O show prosseguiu e dessa vez não me permiti divagar em nenhum momento, me entretendo com conversas ou tentando prestar atenção às letras. Quando terminou, tive de fazer força pra engolir o choro, não sei se pela saudade antecipada que eu estava sentido, ou pela esperança vã que em atormentou a noite toda. Fomos falar com os meninos da banda e o abraço deles me reconfortou, um em especial, e me fez acreditar, naquele momento, pelo menos, que aquela falta a um evento que era importante pra mim não deveria marcar o fim da esperança, mas sim, o início de uma superação.

Eu não sabia se estava sendo radical, ou se estava certa, ao tentar parar de machucar meu coração, eu não sabia como eu iria agir dali a quatro dias, quando eu o veria de novo, eu não sabia como ia esquecer. Eu só sabia que meu maior desejo, era que o fim do show, significasse, além da saudade, das boas lembranças, da reafirmação do meu sentimento de carinho por aquelas pessoas, o fim de um sentimento que estava impregnado em mim. Eu podia sonhara acordada quantas vezes fosse, mas nenhuma delas iria me trazer a felicidade que eu queria. E ainda tinha uma coisa, nenhuma música realmente boa, merecia ser estragada por más lembranças.

- Umas das minhas autoras preferidas. Yohanna Gurgel

Um comentário:

  1. Gente, nem eu tive coragem de postar esse texto... Obrigadinha *-* minha amiga preferida...

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